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<jornal numero="27" data="1865/05/02">
  <pagina numero="1">
    <header>
      <numero n="27">NUMERO 27</numero>
      <data dia="1865/05/02">TERÇA FEIRA 2 DE MAIO</data>
      <ano a="1865">ANNO DE 1865</ano>
    </header>
    <titulo>O LETHES</titulo>
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    <corpo>
      <coluna n="1">
        <titulo orig="Ponte do Lima" data="2 de Maio">
Ponte do Lima 2 de Maio.
        </titulo>
<p>
O baixél do estado volta de novo 
a querer sossobrar.
</p><p>
O mar é tão cavado, os rombos tão
continuados, que já não ha pilôtos, que
o levem a porto de salvamento !
</p><p>
Debalde se empregam os meios mais
desesperados para que o léme o govér-
ne; os ventos sópram com furia de to-
dos os lados, o naufragio é certo; tudo
ali é desordem, ás voses do commando,
das ameaças, do terrôr, a tripulação não
obedece, a indisciplina reina na licen-
ciosa maruja.
</p><p>
É uma perfeita Babel ! Não ha du-
vida, estamos em nóva crise ministe-
rial ! A maioria da camara insurge-se
contra o seu novo <i>senhor</i> o conde d'Avi-
la !
</p><p>
Os bôlos e especiones, manjar sabo-
roso para amaciar aquelles <i>Lycurgos</i>,
não surtiu d'esta vez o desejado fim.
</p><p>
Bem dissemos nós, que o novo mi-
nisterio, não tinha mais vida que os
antecedentes !
</p><p>
O apoio do snr. Lobo d'Avila, lon-
je de prolongar a vida do doente, ap-
pressa-lhe os estortôres da mórte. Os
<b>Soutulhos</b> mátam as situações, é ve-
neno para que não ha triága !
</p><p>
O mal não está nos homens, está
na infracção dos principios, e inocu-
lado nas veias d'essa maioria subser-
viente, que não representa a opinião
illustrada do paiz !
</p><p>
Ha 9 annos, que o governo histo-
rico assumiu as redeas do poder, e
desde então até hoje, a urna deixou
de ser o sacrario dos vótos conscien-
ciosos dos elleitores.
</p><p>
Arvorou-se como principio politico,
como dogma historico, a <i>immoralida-
de a violencia, e vingança</i>; nem a in-
violabilidade individual tem sido aca-
tada: o sangue de cidadãos inermes
tem por varias vezes salpicado as actas
das assemblêas historicas, e a nação
tem-se retirado humilhada, e cobérta
de lucto, vendo despadaçar uma a uma
as suas franquias e liberdade.
</p><p>
Parece que haviamos retrogradado, e
que o systema constitucional depois de
mais de 40 annos de existencia, ainda
estava no periodo de sua infancia. Ha
4 mezes que se abriram as pórtas do
edificio de S. Bento, e n'este curto es-
paço tem desapparecido dois ministe-
rios, e o terceiro parece entrar nas ago-
nias mortaes ! Falta-lhes o appoio da
maioria ?
</p><p>
Não, embaraça-os esse zêlo minis-
terial, suffóca-os aquelle calôr de nada
discutir, e approvar os escandalos, os
vexámes, perseguições e humilhações,
que o paiz tem soffrido durante esta
nefásta administração chamada histo-
rica. Para ella os interesses da nação
estão de parte, quando se trata de sa-
tisfazer ambições pessoaes; todos se
</p>
      </coluna>

      <coluna n="2">
<p>
julgam em posição de serem ministros,
e de se apresentarem a este pacifico
pôvo, como os unicos capases de o sal-
varem !
</p><p>
Modéstia até ali !
</p><p>
E representará essa maioria a op-
pinião illustrada e conscenciosa do
paiz ?
</p><p>
Não de certo, é um bando de am-
biciosos, uma facção abominavel, um
grupo de homens servis e nada mais.
</p><p>
A dissolução, ou appoio franco á si-
tuação, é a ameaça com que o sr. con-
de d'Avila, parece querer abrandar
aquellas furias da maioria. A disso-
lução, com outros ministros que não
o sr. Avila, que inspirassem confian-
ça de que o acto elleitoral, não fosse
uma ficção, que demittissem o governa-
dor civil d'este districto, e de mui-
tos outros, poderia ainda admittir-se
como conselho a seguir, qualquer par-
tido que estivesse no poder, e soffres-
se algum pequeno embaraço na sua
marcha governativa.
</p><p>
Para o partido historico já não é
possivel, nem aproveitaria tal paliativo
politico.
</p><p>
As recomposições successivas, as dis-
sidencias entre os seus membros,a
marcha errada, que tem constantemen-
te seguido, mostram a sua incapaci-
dade, fraqueza e podridão, para con-
tinuarem por mais tempo á testa da
administração d'este paiz.
</p><p>
Os destinos de uma nação que quer
caminhar na estrada da civilisação e
do progresso, aproveitar em pouco
tempo o muito que perdeu, não po-
dem estar sujeitos ao capricho de ho-
mens ambiciosos, orgulhosos, e serem
arrastados no tremedal das suas pai-
xões mesquinhas.
</p><p>
Queremos acreditar, que o illustra-
do chefe do estado, hade conhecer a
melindrosa quadra politica, que atra-
vessam os acontecimentos, e usar da
prerogativa que a carta lhe confére
oppondo-se a este acto violento, que
é provavel o aconselhe o ministro, que
vê o seu orgulho abatido perante essa
maioria historica.
</p><p>
Se ha desejos de procurar o bem
para a nação, de lhe dar um governo
illustrado e progressista, que cure com
disvèllo dos seus interesses, que seja
energico e prudente, ponham de par-
todos esses caprichos pessoaes, sigam
o que está aconselhando a rasão e a
opinião publica reclama, chamem a op-
posição regeneradora ao poder, entre-
gem-lhe a administração do estado,
e convençam-se por uma vez, que a
vida do partido historico está gasta
e que por mais recomposições que in-
tentem fazer, não podem dar vida a
um cadaver que se decompõe.
</p>
<hr/>
<p>
É vergonhoso, e digno do maior re-
paro, o comportamento da nossa ve-
reação.
</p>
      </coluna>

      <coluna n="3">
<p>
Está-se procedendo ao levantamen-
to do traçado da estrada marginal de
Vianna a Ponte do Lima; e diz-se, e pa-
rece que com alguns visos de probabi-
lidade, que esta seguirá a margem di-
reita, do rio sem tocar n'esta villa, em
direcção aos Arcos de Val-de-Vez; as-
sim o parece indicar, a construcção e
arrematação annunciada de alguns me-
tros de estrada dos == Arcos a Ponte do
lima == A nossa camara municipal per-
manece silenciosa á vista de um traçado,
que a ser approvado pelo conselho das
obras-publicas, pouco approveitará
pela distancia a que necessariamente
hade ficar d'esta importante povoação.
</p><p>
O publico murmura e censura este
desleixo, que nós achamos muito cu-
rial, por conhecer-mos que a actual
vereação está muito longe de represen-
tar dignamente este concelho.
</p><p>
Diz-se e passa até como cérto, que
apresentando o vereador Caetano Ma-
lheiro, a necessidade e urgencia de se
representar, pedindo que a estrada en-
tre n'esta villa, para não ser uma ex-
cepção em obras de tal naturesa, o snr.
vice-presidente, José d'Abreu Maia, qua-
lificará de <i>extemporanea</i> e <i>illegal</i> a ini-
citiva do consciencioso vereador.
</p><p>
Isto hade custar a acreditar-se, mas é
uma verdade, que o publico deve saber,
para melhor conhecer aquelles que lhe
extorquiram o seu vóto.
</p><p>
<i>Os procuradores á junta geral, deci-
dirão o que cumpre fazer</i>: concluiu o
snr. presidente.
</p><p>
Que procuradores ? perguntaremos
nós ?
</p><p>
Pois o snr. tenente-coronel José Fran-
cisco Pereira, e padre João Rosendo da
Rocha Barros são procuradores que se
possam tomar a sério ?
</p><p>
Se alli se discutisse o assalto ao fórte
de Lindoso, ou algum cáso omisso no
Larrága, crêmos que os dois cavalhei-
ros eram pessôas muito competentes pa-
ra formularem a sua opinião, mas para
advogarem os interesses d'esta povoa-
ção, em negocios de tanta magnitude,
fazemos justiça a s. s.as que serão os
primeiros a confessar a sua insuffici-
encia.
</p><p>
É altamente censuravel este desleixo
da camara municipal, e digno do maior
reparo a conducta do snr. Maia, que
vendo politica, aonde não há mais que
o amôr e interesse por esta villa, se apre-
sente, faccioso como sempre, aonde nun-
ca o devera ser.
</p><p>
Se a estrada annunciada dos Arcos
a Ponte do Lima, mostra a direcção
que ella deve seguir até Vianna pela
margem direita, a camara deve convi-
dar todas as pessôas gradas do concelho,
e levar aos poderes publicos uma repre-
sentação mostrando a necessidade d'ella
entrar n'esta villa, e seguir pela mar-
gem esquerda para Darque; se o gover-
no tenciona marcal-a pela direita do
Lima, de Vianna para aqui, deve em-
pregar todos os seus esforços, para que
continue até á Ponte da Barca, seguin-
do a margem esquerda, d'esta villa pa-
ra cima.
</p><p>
Eis o que lhe cumpre fazer já e sem
maiores delongas.
</p><p>
A experiencia deve já ter desengana-
</p>
      </coluna>

      <coluna n="4">
<p>
do a todos o nada que vale o snr. de-
putado Lisbôa: empreguem-se portanto
todos os esforços, e creião que todas as
pessôas, pondo de parte paixões poli-
ticas, ajudarão a camara n'esta questão
de vida ou mórte para esta povoação.
</p><p>
Se a camara não tem no seu gremio
quem apresente um projecto de repre-
sentação, não se envergonhe, recorra
aos estranhos, que a ensinarão a cum-
prir, o que deveria há mais tempo ter
feito.
</p><p>
O publico já não estranha essa insuf-
ficiencia porque a conhece, mas stygma-
tisa, não procurar n'esta conjunctura
quem a ensine e lhe sirva de guia.
</p>
<hr/>

        <titulo orig="Lisboa" data="20 de Abril">
Lisboa 20 de Abril.
        </titulo>
        <hr2/>
	<subtitulo>
Do nosso correspondente
        </subtitulo>
<p>
Ha nova crise, ou para dizer melhor,
continúa a crise. Estava previsto, por-
que a inobservancia dos principios le-
va sempre a situações irregulares e
pouco duradouras. Podia o paiz ter já
governo forte, progressista, liberal, e
tolerante, e a vaidade petulante e ma-
ninha do snr. Avila fez com que não
haja governo, que satisfaça á opinião
publica e ás aspirações do paiz.
</p><p>
As scenas da secretaria do reino, o
que alli se passou de vergonhoso, os
ultimos discursos do snr. Avila no
parlamento, vieram confirmar a minha
opinião, de ha annos manifestada, que
o snr. Antonio José d'Avila, não é ho-
mem que possua capacidade para diri-
gir uma situação politica, em qualquer
conjunctura, quanto mais na actualida-
de, que se necessita de braço possante
e de fino tacto que não possue o mi-
nistro, que ainda hontem se declarava
defensor da <i>lei das rolhas</i> e represen-
tante do partido conservador ! Conser-
vador na accepção do snr. Avila, que
até os proprios conservadores já se en-
vergonham de ser...
</p><p>
Estas e outras <i>ingenuidades</i> do minis-
tro da fazenda, o seu tracto rude e
aspero, a sua constante grosseria nos
modos de tratar, a sua infecundidade
proverbial no governo do paiz, a inti-
ma alliança com o snr. Lobo d'Avila, e
com todos os que representam a facção
da <i>unha negra</i>, o apoio que lhe foi pro-
mettido pelo snr. conde de Thomar, não
como conveniencia passageira, mas co-
mo alliança de intuitos e pensamentos
communs; tudo isso tem concorrido
para que os homens sérios do partido
liberal, que ha annos andavam separa-
dos, menos por differença de principios
do que por caprichos mal entendidos,
se tenham aproximado, e tractem, se-
gundo ouvi, de acabar com rivalidades
que deviam ser ephemeras, para se en-
tregarem ao serviço do paiz, em nome
dos seus interesses (dos da patria) da
liberdade, da tolerancia, e da probida-
de. Supponho que será possivel fazer
cousa que se pareça com a regeneração,
que teve por fim governo honesto e
utilissimo, com o concurso de todos os
homens prestadios.
</p><p>
Esta idéa, que toda a gente abraça,
que está na mente de todos, que o pu-
</p>
      </coluna>
    </corpo>
  </pagina>

  <pagina numero="3">
    <seccao titulo="Exterior"/>

    <item origem="NOVA-YORK" data="15">
<p>
NOVA-YORK 15. -- O presidente Lin-
coln e o ministro Seward foram assas-
sinados. O primeiro morreu logo com
um tiro de pistóla; e o segundo não
escapará aos ferimentos que recebeu.
</p><p>
Os assassinos foram os irmaõs Booth,
separatistas fanaticos.
</p>
    </item>

    <item origem="IDEM">
<p>
IDEM -- <i>idem.</i> -- Os periodicos e o
povo exprimem todo o seu horror pelo
assassino de Lincoln. A bolsa está fecha-
da. Grant e Stanton tambem estavam
votados ao assassinato. O vice-presi-
dente Johnson, occupando o cargo de
presidente, disse que cumpriria com os
seus deveres, e que as consequencias
pertencem a Deus. O modo como John-
son se apresentou fez favoravel im-
pressão.
</p><p>
Lincoln foi assassinado no theatro de
Washington, o secretario de Estado Se-
ward foi atacado em sua casa na mes-
ma noute.
</p>
    </item>

    <item origem="TURIM" data="27">
<p>
TURIM, 27. -- A camara votou uma
manifestação de sentimento ao parla-
mento americano em consequencia dos
assassinatos. A bandeira po edificio do
parlamento dará demonstração de luto
durante tres dias.
</p>
    </item>

    <item origem="NOVA-YORK">
<p>
NOVA-YORK. -- Leward evitou a mor-
te saltando fôra do leito. Os assassinos
ainda ainda não foram presos. William
Hunter foi nomeado secretario d'Estado
durante o impedimento de Leward.
</p>
    </item>

    <item origem="PARIS" data="24">
<p>
PARIS 24. -- O "Moniteur" diz que
os despachos da America até 15 de
Abril dão a importante noticia de ter
capitulado o general Lee com todo o
seu exercito, no dia 9.
</p><p>
As condições são honrosissimas para
os vencidos; os officiaes e os soldados
teem licença de voltar para os seus la-
res debaixo de palavra. Os officiaes con-
servam as suas armas, Lee retirará pa-
ra Weblon.
</p>
    </item>

    <item origem="VIENNA" data="23">
<p>
VIENNA, 23. -- O governo resolveu
mandar reforços ao corpo do exercito
que está nos ducados. Ordenou que vão
alguns vasos de guerra para o porto de
Kiel. Os animos estão muito desassoce-
gados. Receia-se e julga-se imminente
um grave conflicto com a Prussia.
</p>
    </item>

  </pagina>
</jornal>
